AGRICULTURA REGENERATIVA NO GANDUM
É possível fazer agricultura de forma mais sustentável e consciente, preservando os recursos naturais e minimizando o impacto ambiental. Acima de tudo, é possível produzir comida mais saudável e de confiança, mantendo o equilíbrio dos ecossistemas e regenerando a paisagem e os solos.
Os fundadores do Gandum, a Martina e o João, sempre trabalharam na área da sustentabilidade alimentar e decidiram pôr em prática no Gandum um modelo de alimentação que muitas vezes idealizaram ou sobre o qual escreveram. Ou seja, com as ideias claras e as mãos na terra, decidiram passar da teoria à prática. Passar do computador para a terra nem sempre é fácil. Mas é o único caminho para concretizar o que imaginaram: um hotel especialmente pensado para famílias, o mais sustentável possível e que produz grande parte dos alimentos que consome, da sua água e da sua energia.

Regenerar os solos
As alterações climáticas são já tão grandes e drásticas que falar em sustentabilidade da agricultura já não tem muito sentido: os solos estão já demasiado pobres e muitas vezes improdutivos devido à desertificação, e as chuvadas cada vez mais intensas ou os longos períodos de seca pioram ainda mais a condição dos solos. A perda de biodiversidade e a exaustão ou poluição de lençóis freáticos e recursos de água completam um cenário que não é mais de “sustentar”, mas sim de regenerar - de melhorar, de voltar a um estado de produtividade e equilíbrio com futuro. Por isso, dedicamos grande parte dos nossos esforços no Gandum a aprender e a desenhar técnicas e práticas de agricultura regenerativa que funcionem aqui, regenerem os solos e permitam a outros agricultores inspirarem-se e seguirem o exemplo
Privilegiar os solos
No Gandum, a agricultura regenerativa que praticamos tem como objetivo fornecer, talvez não a totalidade, mas grande parte dos alimentos que consumimos. Dizemos “grande parte”, porque também somos apaixonados por café ou chocolate, e será difícil num futuro próximo ter produtos exóticos no Alentejo.
Tudo isto porque acreditamos que só podemos ter um sistema alimentar melhor para todos quando produzirmos localmente grande parte daquilo que queremos e precisamos para a nossa alimentação. Alimentos que nos deixem saudáveis e com a energia de que precisamos, respeitando a natureza e o equilíbrio dos ecossistemas.
Financeiramente viável
A agricultura regenerativa só faz sentido se for financeiramente viável. Acreditamos que não podem ser apenas as grandes monoculturas intensivas, convencionais ou mesmo em modo de produção biológico, a solução para quem quer investir no mundo rural. Produzimos, semeamos, plantamos e cuidamos das nossas agroflorestas inspirados na permacultura e vamos beber aos conhecimentos e tradições locais de Montemor-o-Novo. Tentamos juntar todos estes conhecimentos num planeamento que se quer rentável, atrativo e com futuro. Embora ainda tenhamos um longo caminho de aprendizagens pela frente, já começa, literalmente, a dar frutos.
Agroflorestas: mais de 25 mil árvores plantadas
Uma das formas de praticar a agricultura regenerativa é criando agroflorestas. Foi por aí que começámos: no Gandum, existem três agroflorestas, todas semeadas e plantadas desde o início do projeto. Hoje estão verdes e abundantes! Apesar de serem jovens, as agroflorestas permitem produzir alimentos de forma sustentável, utilizando práticas agrícolas que preservam a biodiversidade e promovem a regeneração do solo. Além disso, fazem o mundo respirar: contribuem para mitigar as alterações climáticas, capturando carbono e fornecendo habitats para a fauna e flora locais.
Na prática
Florestas comestíveis, densamente plantadas
Cerca de 3 hectares de pomares com 30 variedades de árvores de fruto, árvores florestais, ervas aromáticas e arbustos autóctones, plantados com inspiração na agrofloresta sintrópica. O que costumava ser pastagem foi transformado numa floresta “comestível”, densamente plantada, onde agora crescem árvores florestais e de fruto, arbustos, vegetais e outras plantas. Esta combinação de árvores e arbustos protege os nossos produtos hortícolas de valor comercial das condições climáticas mais extremas, como ventos, calor extremo e tempestades.
Sem químicos
Sabemos o trabalho que nos dá. Sabemos que é por vezes mais arriscado e necessita de muito acompanhamento e manutenção. Mas ainda assim, preferimos substituir a utilização de pesticidas e adubos químicos por mondas manuais e técnicas naturais menos invasivas para o meio ambiente. O mulching, por exemplo, permite-nos proteger o solo das diferenças de temperatura e intempéries, fornecer alimento aos microorganismos do solo e reter humidade. Abolindo o uso de químicos agressivos, conseguimos alimentos orgânicos mais benéficos para a saúde e ao mesmo tempo melhoramos a saúde dos solos cultivados.
Fechando o ciclo da economia circular
Fomentando a economia circular, produzimos o nosso próprio adubo natural através da compostagem de todos os nossos lixos orgânicos. Desta forma asseguramos que tudo o que é devolvido à terra como fertilizante é de confiança e não prejudica o meio ambiente. Alimentamos os solos através da reposição de matéria orgânica e assim fechamos o ciclo de resíduos, utilizando-os de forma mais eficiente. Paralelamente, estamos a desenvolver técnicas para devolver aos nossos solos os nutrientes provenientes da estação de tratamento de águas residuais.
Produção hortícola tradicional e sem impacto
Produção hortícola 100% sem adubos químicos nem pesticidas, com o máximo respeito pela natureza e sempre com o objetivo de melhorar o solo, e não de o explorar.
Sebes com arbustos e árvores maioritariamente autóctones
Mesmo os jardins não produtivos privilegiam plantas autóctones. Damos primazia a árvores que forneçam sombra e assim reduzam a exposição solar dos solos, protegendo-os e criando condições para apoiar a biodiversidade.
Renaturalização de várias áreas
No Gandum, temos várias áreas da quinta vedadas a animais domésticos e deixadas à natureza para estimular a regeneração natural e permitir que plantas espontâneas coexistam com a nossa produção alimentar.
Também a fauna selvagem encontra aqui a sua casa. A regeneração da paisagem ripícola com vegetação autóctone que plantámos por todo o Gandum, contribuiu para o regresso e aumento de diversas espécies de aves, répteis, anfíbios e pequenos mamíferos. Como num casamento perfeito, o leito da ribeira foi reflorestado e partes do terreno devolvidas aos animais selvagens através da sua renaturalização.
Inclusão no território e na comunidade
Antes de mais e acima de tudo, quisemos abrir as portas à comunidade. Por isso, quando procurámos pessoas para nos ajudar, recorremos principalmente à população local contratando colaboradores para as mais diversas áreas de trabalho do Gandum, incluindo a parte agrícola. A diversidade de perspetivas pode ser muito enriquecedora e trazer robustez ao plano de agroflorestas que desenhámos. Acreditamos que a vasta experiência dos que já aqui andam há mais tempo que nós, só nos acrescenta e faz crescer como agricultores.
Sazonalidade
Damos primazia às culturas de cada época do ano porque sabemos que tudo tem o seu tempo. Podemos adaptar-nos e receber o melhor que a terra nos dá se soubermos respeitar os sistemas naturais e as suas cadências. Fazendo a rotação de culturas nas várias parcelas cultivadas, conseguimos controlar as pragas de forma mais eficiente, gerir os solos de forma mais assertiva e preservá-los. Comida da época é sempre mais saudável, nutritiva e amiga do ambiente.
Gestão sustentável da água
No Gandum utilizamos técnicas de poupança de água, como por exemplo, tubos gota-a-gota e utilização de água obtida 100% nos nossos terrenos, sem recorrer a águas de albufeiras ou barragens.
Usámos, sempre que possível, técnicas tradicionais de irrigação por gravidade e usamos a energia solar quando temos que recorrer a bombas para retirar água dos poços, furos ou nascentes existentes nos terrenos.
Recursos hídricos
Um dos pontos chave na gestão de qualquer cultura, é a água, esse bem escasso e tantas vezes maltratado. Temos consciência de que sem água e sem uma boa gestão deste recurso, nada disto seria possível. Uma das formas que usamos para maximizar a quantidade de água disponível para usos agrícolas no Gandum é a recolha de águas pluviais. Temos um sistema que armazena a água das chuvas que é depois usada nos sistemas de rega das parcelas cultivadas. Para além disto, reutilizamos as chamadas águas cinzentas provenientes da manutenção das piscinas do hotel. Estas águas são tratadas com radiação UV enquanto servem as instalações e quando mudadas, em vez de serem descartadas, servem para a rega das parcelas cultivadas. Desta forma conseguimos melhorar e tornar mais eficiente o ciclo hídrico.
Um Oásis no Alentejo
As previsões a médio e longo prazo dizem-nos que o Alentejo se transformará numa zona árida como o Norte de África. Queremos contrariar esta tendência e fazemos tudo isto para que no futuro o Gandum seja um Oásis no meio do Alentejo: verde, com água, com temperatura amena, que regenera os solos sequestrando carbono da atmosfera, onde todos podem desfrutar, inspirar-se e aprender como podemos construir juntos uma vida melhor.
